Formação › 02/03/2017

É sempre tempo…!

Sois pó e ao pós haveis de voltar. A certeza contida nesta frase deve levar-nos a temer nossas vaniloquências impensadas, nosso orgulho, nossa prepotência, nosso julgamento pré-condenatório. Na fragilidade do pó das cinzas, deveríamos perceber a forma precisa do nosso nada, nossa transitoriedade, a linha tênue da vida e da morte. Esta célebre sentença é um apelo forte à conversão, à transformação do homem velho que, revestido da vaidade, fica impedido de dizer como o salmista: “A minha vida é como um nada diante de Ti” (Sl 38,6). O pecado não nos deixa compreender que, diante de Deus, o nosso tudo se transforma em nada.

Para nós, cristãos, a Quaresma deve ser tempo de graça, de aperfeiçoamento e de conversão, e ser vivenciada com mais intensidade. Se deixarmos que transcorra na apatia indolente de nossos atos cotidianos ou na azáfama do ativismo pastoral, teremos deixado passar em vão a graça de Deus (cf. 1Cor 15,10). Hoje, muitos agentes de pastoral estão fatigados e desanimados, pois a mística do tempo litúrgico foi suplantada pela busca de êxito na missão em detrimento da conversão pessoal.

O apelo quaresmal, que com tanta eloquência pregamos na liturgia, clamando à conversão, deve ecoar no nosso coração com a mesma veemência de ontem e não como muitos dos nossos discursos unilaterais, que cobram dos irmãos e terminam por se reduzir a uma dissimulação da santidade. O Senhor espera de nós um verdadeiro culto e não as nossas vãs orações: “Tem, porventura, o Senhor tanto prazer em holocaustos e sacrifícios quanto em que se obedeça à sua palavra? Eis que o obedecer é melhor do que o sacrificar, e o atender, melhor do que a gordura de carneiros” (1Sm 15,22). Assim, como outrora aos profetas, o Senhor continua a nos “…atrair e conduzir-nos ao deserto para nos falar ao coração” (cf. Os 2,16), num apelo profundo de mudança: “Rasgai vossos corações e não as vossas vestes…” (J1 2,13).

Prezados irmãos, vivamos com intensidade nossa Quaresma e em momento algum nos cansemos de amar, de perdoar e de recomeçar, pois, em cada Eucaristia, e em nossas orações, precisamos ter consciência de nossas quedas e das nossas cegueiras e livremente perguntar: “Senhor, que queres que eu faça?” (At 9,6). No amanhecer ou no entardecer de nossas vidas, busquemos com todo o nosso ser, com toda a força de noss’alma, viver o convite do Pai São Francisco: “Irmãos, vamos começar a servir a Deus, porque até agora fizemos pouco ou nada” (IICel 6,103).

Estaremos começando a servir ao senhor quando formos capazes de aplainar os montes e de endireitar as veredas da discórdia, da insensibilidade e da falta de misericórdia com aqueles que o Senhor nos confiou; quando nossa solidariedade e nosso falar transpuserem os muros dos interesses escusos.

Somos interpelados a proclamar a mensagem de Paz e Bem, a fim de que o espírito da discórdia, da ambição e da divisão do tempo vigente não venha permear a nossa caminhada eclesial, transformando-nos em sal insípido e em cegos incuráveis que vivem, se alimentam, padecem e morrem da própria cegueira.

Sei que nem sempre conseguimos forças quando o dia declina, mas, quando o torpor da existência tomar conta de nossas vidas, não nos esqueçamos do que nos diz o profeta Ezequiel: “…Vou tomar eu próprio o cuidado com minhas ovelhas, velarei sobre elas… eu as apascentarei em boas pastagens; elas serão levadas a gordos campos… A ovelha perdida eu a procurarei; a desgarrada, eu a reconduzirei; a ferida, eu a curarei; a doente, eu a restabelecerei…” (Ez 34,11-16).

A imagem pode conter: 3 pessoas, pessoas em pé, multidão e barbaDeus, nosso Pai e verdadeiro Pastor, não nos abandona! Principalmente quando o nosso coração está dilacerado. Convida-nos a não abandonar sua mão que nos conduzirá aos lugares mais remotos de nossa alma, lá onde residem nossas “feras”: o homem leproso que ainda não conseguimos domar e curar. E, nesse esforço contínuo de transformação, não estaremos sozinhos: Cristo virá conosco.  Podemos rezar como os discípulos de Emaús que, já cansados e fatigados, encontraram na escuta da Palavra o alívio da longa caminhada, e com o coração já aquecido, insistiram: “Fica conosco, Senhor, pois cai a tarde e o dia já declina” (Lc 24,29). E naquela refeição redescobriram o Senhor e recuperaram a alegria de viver, as forças para voltar à comunidade. A redescoberta da presença do Senhor, após fatigante caminhada, quando nossos olhos contemplam o pôr-do-sol, leva-nos a confirmar as palavras do salmista: “Provei e vi como o Senhor é bom. Feliz o homem que se refugia junto dele” (Sl 33,9). O Deus de amor e de perdão… pois “o nome de Deus é Misericórdia”.

A penitência e a conversão nos levarão a celebrar a Páscoa do Senhor em nossas vidas; sepultaremos o velho homem, e, quando a pedra for rolada, ressurgiremos com um coração novo, purificado pela água e pelo fogo da Noite Santa. Aí, sim, poderemos evangelizar acreditando e vivenciando o que ousamos anunciar. Que nesta Quaresma o Senhor seja nosso princípio e fim.

 

+ Magnus Henrique Lopes, OFMCap.

Bispo Diocesano de Salgueiro

 

 

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